Natureza


Durante muito tempo, a monocultura da cana-de-açúcar desenhou a paisagem desta região de Pernambuco. A antiga Usina Santa Terezinha fazia parte desse cenário, marcado pela atividade industrial e pelo cultivo contínuo da terra.

A transformação desse lugar começou também pelo jardim.

O Parque Artístico-Botânico foi concebido pelo biólogo e paisagista Eduardo Gomes Gonçalves, que acompanha seu desenvolvimento e sua expansão desde o início. Em 2016, o plantio da primeira árvore, um tamboril, marcou o começo de um processo que continua até hoje. A partir dali, novas árvores, arbustos, herbáceas, forrações e outras espécies passaram a ocupar o território, criando uma paisagem em constante transformação, feita de diferentes volumes, texturas, sombras, cores e ciclos de floração.

A implantação de três lagoas, alimentadas por uma nascente do entorno, ampliou esse movimento e criou novos ambientes de abrigo e circulação. À medida que a vegetação cresceu e os cursos d’água foram recuperados, a vida também encontrou espaço para retornar. A presença de aves, répteis, pequenos mamíferos e insetos passou a fazer parte do cotidiano do Parque, revelando, pouco a pouco, a capacidade de regeneração daquele território.

Hoje, o Parque se estende por mais de 40 hectares, em um trabalho permanente de reflorestamento, manejo e cuidado que também alcança seu entorno. Não se trata de um jardim concluído, mas de uma paisagem que continua a crescer, se transformar e se reinventar. Um processo feito de tempo, observação, conhecimento e permanência.

É nesse ambiente vivo que a arte acontece.

As obras contemporâneas não chegam a um cenário pronto: inscrevem-se em uma paisagem em transformação. Árvores crescem ao redor das esculturas, sombras se deslocam ao longo do dia, plantas florescem e animais compartilham o espaço com as obras e os visitantes. Com o passar dos anos, cada trabalho estabelece novas relações com aquilo que o cerca. O jardim deixa de ser pano de fundo para tornar-se parte ativa da experiência.

Na Usina de Arte, natureza e arte crescem juntas, entrelaçando diferentes formas de tempo: o tempo da vegetação, o movimento dos animais, a transformação da paisagem e a permanência das obras. Percorrer o Parque é atravessar uma paisagem que, depois de décadas marcada pela monocultura, encontrou uma nova vocação.

Uma paisagem que não pretende apagar sua história, mas transformá-la preservando, recuperando e devolvendo vitalidade ao território

Palmeiras


Antes mesmo das obras, vieram as palmeiras.

Quando Ricardo e Bruna voltaram a frequentar a Usina, começaram a organizar os jardins ao redor da casa. Foi nesse processo que conheceram Gileno Machado, estudioso e apaixonado por palmeiras. Com ele, descobriram a beleza e a diversidade dessa família de plantas, um interesse que se aprofundou à medida que o jardim crescia.

As palmeiras foram chegando aos poucos, vindas de diferentes partes do Brasil e de regiões tropicais do mundo. Com o tempo, a coleção cresceu e ganhou um lugar próprio no Parque Artístico-Botânico. Gileno foi convidado para ser seu curador, e o Palmeto foi dedicado a ele.

Entre as espécies brasileiras estão a carnaúba, tão ligada à paisagem e à cultura do Nordeste, o buriti das veredas e o carandá do Pantanal. De outras paisagens tropicais vieram a palmeira-azul de Madagascar, com sua folhagem prateada; a palmeira-laca, de hastes vermelho-vivo; as Pritchardia, com suas grandes folhas em leque; e a Arenga pinnata, conhecida como palmeira-do-açúcar. Sua seiva é tradicionalmente usada para produzir açúcar em regiões do Sudeste Asiático.

Entre as mais singulares está a Tahina spectabilis, de Madagascar. Descrita pela ciência em 2008, é uma palmeira criticamente ameaçada que floresce uma única vez ao longo da vida e morre após esse evento.

No Parque, uma alameda de dendês de folha inteira conduz por parte da coleção. Suas folhas, diferentes das que normalmente vemos nos dendezeiros, não se dividem em folíolos: os “dedos” permanecem unidos. Essa característica rara poderia ser vista como uma falha da natureza, mas aqui se transforma justamente naquilo que a torna especial.

Mais do que uma coleção, o Palmeto revela uma maneira de olhar para a paisagem: perceber a diversidade nas pequenas diferenças, acompanhar o tempo das plantas e deixar que elas também participem da construção deste lugar.

Cada palmeira tem sua própria silhueta, seu ritmo e sua maneira de receber a luz. Troncos esguios ou robustos, folhas em leque ou em pluma, tons de verde, prata e vermelho. Juntas, desenham uma paisagem viva, que muda ao longo do dia e acompanha o visitante pelo Parque, entre uma obra e outra.

Orquídeas


As orquídeas pertencem à família Orchidaceae, uma das maiores e mais diversas famílias de plantas com flores. Sua diversidade se manifesta em formas, cores, tamanhos, estratégias de polinização e também em aromas. Algumas espécies apresentam fragrâncias que remetem a café, chocolate ou outras substâncias, enquanto a baunilha é produzida por espécies do gênero Vanilla, também pertencente à família das orquídeas.

Cerca de 10 mil plantas compõem a coleção de orquídeas da Usina de Arte. Entre elas estão Cattleyas nativas do Agreste pernambucano, Vandas, conhecidas por suas raízes aéreas, e pequenas espécies do gênero Phymatidium, de flores delicadas e geralmente esbranquiçadas, que crescem sobre as pitangueiras do entorno. Também faz parte da coleção o Cyrtopodium, gênero de orquídeas nativas que pode ocorrer associado a ambientes rochosos e apresenta flores em tons de amarelo.

O orquidário reúne ainda outras plantas epífitas, como tilândsias e barbas-de-velho. Epífitas são plantas que utilizam outras plantas, geralmente árvores, como suporte, sem retirar delas água ou nutrientes. Essa estratégia permite ocupar diferentes espaços no ambiente e amplia a diversidade de formas de crescimento presente na coleção.

A coleção não permanece estática. As orquídeas apresentam ciclos próprios de crescimento e floração, e cada espécie responde de maneira particular às condições de luz, umidade, temperatura e disponibilidade de água. Na Usina, essa dinâmica também determina a experiência do visitante. A estufa de manutenção abriga as plantas que estão fora do período de floração. À medida que desenvolvem suas flores, algumas são transferidas para o orquidário de visitação. O espaço, assim, se transforma continuamente, acompanhando os ciclos naturais das plantas.

Foi o desejo de aproximar o público dessa coleção que inspirou o artista cubano Carlos Garaicoa a criar Jardim Frágil. Como o orquidário de trabalho não era aberto à visitação, Garaicoa imaginou uma obra envolvida por orquídeas em flor. Para aproximar o público da coleção e, ao mesmo tempo, abrigar a escultura, convidou a arquiteta Jetter Gonzales para conceber, em diálogo com ele, a estufa de visitação.

Entre o vidro, a arquitetura e as plantas, arte e botânica encontram um mesmo espaço. A estufa protege, abriga e cria as condições para que a coleção possa ser observada em seus diferentes ciclos. E, em um território que também atravessa um processo contínuo de transformação, as orquídeas tornam-se uma imagem particularmente potente de renovação: plantas que crescem, repousam e, em seu próprio tempo, voltam a florescer.


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